Phnon Phen e a trágica história do Camboja

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Poucas coisas me deixaram tão triste quanto visitar o museu do genocídio no Camboja. Minha visita à capital Phnon Penh foi curta mas também foi dolorosa. Fui até lá para visitar o Killing Fields e a Prisão de Tuol Sleng e mal tinha a ideia do que tinha acontecido naquele país em um passado tão recente. Quantas milhares e milhares de pessoas tinham sido assassinadas brutalmente, quantas tiveram de deixar suas casas, quantas tiveram os seus filhos mortos e sequestrados e quantos sobreviveram para contar toda a tortura que sofreram na mãos dos soldados do regime Kmer. 

Entendendo o regime do Kmer Vermelho

Cansados de um colonialismo francês de mais  100 anos e da instabilidade que tomava conta do Camboja nos anos 70, o Kmer Vermelho tomou o poder sob a liderança de Pol Pot em 1975. O grupo que pregava libertação total do país e parecia a única saída para os cambojanos, foi responsável pela morte de 1/4 da população. 
Pol Pot que chegou a  decretar o ano 0 no Camboja, também obrigou todos os  cidadãos do país a trabalharem nos campos de arroz por até 18 horas com somente uma refeição ao dia. Cidades inteiras foram evacuadas. Qualquer cambojano que se recusava deixar sua casa e ir ao campo era executado imediatamente. Médicos, professores e qualquer pessoa que tivesse um nível de educação acima do permitido por Pol Pot era levado para Tuol Sleng junto com a sua família . Lá sofriam todo tipo de tortura. 
Em 3 anos 8 meses e 20 dias o regime sequestrou, torturou e matou mais de 200 mil cambojanos . Só 125 pessoas sobreviveram. O regime Kmer só acabou depois que os vietnamitas invadiram o Camboja em 1979. Pol Pot fugiu para as montanhas no norte do país e morreu sem nunca ter pagado pelos crimes bárbaros que cometeu.


Visita ao Kiling Fields

O Killing Fields, que hoje é um museu aberto ao público fica a mais ou menos 40 minutos em tuk-tuk do centro da caótica capital do país. Logo na entrada a sensação é de que a visita será dura. Vi como duas turistas saiam de dentro do recinto com lágrimas nos olhos. À entrada custa 6 dólares com um guia auditivo que contam com detalhes toda a massacre que cada prisioneiro viveu naquele lugar terrível. A visita dura cerca de 1 hora e meia , isso se você aguentar escutar reproduções de áudio e depoimentos do que foi aquele lugar para a população cambojana entre os anos de 1975 e 1979.





Eu fiquei chocada desde o primeiro momento que entrei no recinto, mas algumas partes daquela visita me deixaram completamente sem chão. Em um momento o áudio guia pede para você sentar em um dos bancos improvisados no meio de um terreno baldio. Depois, uma sobrevivente, que agora vive nos Estados Unidos conta como ela, depois de sofrer todo tipo de violência, conseguiu sobreviver àquele lugar. Em outro momento, uma árvore com fitinhas coloridas aparece na sua frente. Ali, crianças eram arremessadas pelos soldados de Pol Pot até perderem a consciência. Em outro momento, e quiçá o que mais me arrancou lágrimas, foi ouvi a música que os prisioneiros escutavam antes de serem executados. Eles eram obrigados a ouvir o hino da revolução antes de levarem um tiro na cabeça e terem seus corpos enterrados em uma vala.


Depois de anos muitos corpos foram descobertos nesse terreno baldio

Memorial em homenagem as vítimas

A visita termina em um memorial feito em respeito as vítimas do regime Kmer, onde crânios e ossadas são expostas. 

A prisão de Tuol Sleng

No mesmo dia fomos visitar o que foi a prisão de Tuol Sleng. A antiga escola perto do centro de Phnon Penh, que um dia serviu para torturar prisioneiros ainda esconde marcas daquela revolução macabra.




Logo na entrada, um mural com fotos de todas as vítimas daquela prisão estão expostas. Cada fotografia reproduz o medo dos olhos que por ali passaram. A foto que mais me chocou foi a desse menino:
Ele só tinha 13 anos

Chorei cada vez que vi o terror de cada sala daquela prisão. Pol Pot mandava prender e matar uma pessoa pelo simples fato de ela levar óculos. Dizia, em seus discursos doentios, que preferia matar um inocente que a deixar um possível traidor vivo. 


Depois dessa overdose de violência e tristeza decidimos deixar Phnon Penh no mesmo dia. 
Sai de lá pensando como um país com um passado tão violento deu lugar a pessoas tão doces. E passei a entender porque o Camboja sofre com tanta pobreza, tantas famílias devastadas e tantas crianças órfãs. Saí de lá desejando que nunca o mundo volte a presenciar tamanha atrocidade em nome do poder. 


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