Meus 10 anos de vida nômade.

19:02:00

Outro dia estávamos na aula de speaking na nossa escola de inglês aqui em Sydney e nossa professora estava falando sobre adaptação. Da dificuldade que algumas pessoas têm em adaptar-se a uma nova casa, uma nova escola, uma nova vida.

Daí ela começou a perguntar quantas vezes tínhamos mudado de escola, quantos países já tínhamos vivido e quantas vezes tínhamos mudado de casa.
A maioria dos alunos respondeu uma ou duas vezes, outros disseram que era a primeira experiência em outro país. Até que chegou a minha vez de falar. Aí eu comecei a dizer que já tinha vivido em três países, que só no Brasil vivi em umas onze casas diferentes e que, no ensino fundamental, mudava de escola cada ano.
Claro que todo mundo me olhou com cara de assustado, e eu, que nunca dei muita importância a esses detalhes, me senti um ET naquela aula.


Rodando por aí...

Quando vivia no Brasil, era quase normal quando minha mãe me dizia:
A gente vai mudar de casa outra vez, vai arrumar suas coisas”
Como já disse aí em cima, vivi em 11 casas diferentes com apenas 19 anos. Só em um condomínio, onde passei a maior parte da minha adolescência, morei em 5 apartamentos diferentes. Vivendo de aluguel, quase sempre durávamos um ano ou um ano e meio na mesma casa.
Na escola não foi diferente, passei a primária na mesma escola, mas no ensino fundamental, mudava de escola todos os anos. Estudei em escola pública, escola particular, perto e longe de casa.
Quando respondemos todas as perguntas, começamos a discutir a dificuldade de “começar de novo”. Eu, como boa nômade, disse que não tinha dificuldade de adaptação, e que ao contrário de muita gente, adorava trocar de lugar. A expectativa do novo superava o medo de começar do zero. Na época que eu era criança, minha única preocupação era fazer novos amigos e lembrar outra vez dos nomes dos novos professores.


A felicidade de conhecer novos lugares

Essa discussão me fez entender porque eu gosto tanto de viajar, de mergulhar no novo, de conhecer gente nova. Quando eu deixei o Brasil e fui morar em Portugal, minha mãe me disse que já sabia que eu iria embora assim que completasse 18 anos. Só pra deixar claro, eu não tenho nenhum problema familiar, nem nunca precisei fujir de nada. Tenho a sorte de ter uma família super estruturada, minha mãe e meu pai são separados mas convivem como amigos de infância e meus irmãos ainda vivem com os meus pais, que agora são vizinhos de condomínio.

O que eu pensava naquela época e que ainda continuo pensando, é que o mundo é muito grande. E como alguém já disse no auge da sua sabedoria: “O mundo é muito grande pra nascer e morrer no mesmo lugar”.
Sei que muitos não tem coragem de deixar família, amigos, trabalho pra se aventurar em um país diferente, e até entendo. O que eu não suporto é gente que vive reclamando de tudo e não faz nada pra mudar. Coisas simples, como trabalho, relacionamento, casa, rotina.
Quando completei 18 anos fiz vestibular em São Paulo, mas infelizmente não passei, comecei a trabalhar e fazer curso de idiomas. Mas logo me dei conta que não era aquilo que queria pra mim. Minha mãe tem uma amiga que mora em Portugal e eu disse que queria ir pra lá. Em três meses comprei minha passagem fiz minhas malas e me despedi de todo mundo. Na época muita gente disse pra minha mãe que achava perigoso, meu pai não estava de acordo com a minha mudança e meu irmão me disse que só acreditava que eu estava indo embora quando eu entrasse no avião. Ouvi de tudo quanto foi opinião. Mas não estava nem aí.
Portugal, país que foi minha casa por dois anos e meio

Vivi em Portugal dois anos e meio. Nesse tempo, minha mãe, minha tia e uma prima também vieram. Minha mãe ficou um ano e voltou, minha tia viveu 5 anos e minha prima ainda vive lá.
Assim que minha mãe deixou Portugal, surgiu uma oportunidade de ir à Barcelona de férias, gostei tanto que decidi me mudar pra lá.
Já tinha mesmo a idéia de me mudar pra outro país e Barcelona caiu do céu. Mais uma vez repito não estava fugindo de nada. Fiz inúmeros amigos em Portugal, tinha trabalho, mas simplesmente minha mania de mudar apareceu. Lembro escutar de uma amiga uma coisa que na época até me deixou um pouco chateada. Ela disse: “Chegará um momento que você não vai feliz em lugar nenhum.”
E eu disse a ela: “Ao contrário, acho que posso ser feliz em todos os lugares”.


Sitges: cidade onde fui feliz durante 7 anos

Recebi inúmeras visitas enquanto vivi em Barcelona

Me mudei pra Barcelona, com pouco dinheiro e com duas malas. Uma das coisas que eu aprendi nesses dez anos é que o que a gente precisa cabe em uma, no meu caso, duas malas. Desapego é meu sobrenome. Nunca fui apegada as coisas materiais, e ás vezes fico me questionando porque é tão fácil pra mim me despedir dos amigos. O que eu penso na verdade, é que amigo de verdade é seu amigo aqui ou na China.

Tive que começar do zero outra vez em Barcelona, por sorte encontrei um trabalho rápido e conheci muita gente bacana. Também mudei várias vezes de casa, seis ao todo. Fiz muitos amigos, estudei , aprendi outro idioma, trabalhei como garçonete á recepcionista de vôos privados, de camareira de hotel á vendedora da ZARA. Conheci meu namorado, fiz as melhores amigas que a vida poderia me dar. Vivi sete anos de muita coisa boa, mas daí surgiu a vontade de mudar outra vez.


Há 3 meses vivemos em Sydney

Por sorte meu namorado é como eu, adora conhecer novos lugares e aprender com novas aventuras.
Depois que ele perdeu o trabalho, decidimos que era hora de ir pra outro país, como alguém já me disse uma vez: "Um chute na bunda, ás vezes faz você andar pra frente" -desculpem a expressão- mas não existe verdade maior.

Assim foi, juntamos dinheiro e decidimos embarcar rumo a Sydney, onde atualmente vivemos. Pedi uma licença não remunerada no meu antigo trabalho, do qual não tenho nenhuma saudade.
Não vou dizer que tudo foram flores, passei por algumas dificuldades que nunca me fizeram desistir, me decepcionei com muita gente, já me vi sem dinheiro várias vezes, mas nada supera alegria de viver em um lugar diferente, aprender coisas novas, conhecer gente com a vida e os costumes totalmente diferentes dos seus, fazer amigos.
Isso é que me me alimenta o que me faz sentir viva. As minha viagens e as minhas mudanças são uma espécie de oxigênio pra mim, termino uma viagem e já estou pensando em outra. Já desisti de me questionar por que eu sou assim. Penso que se isso me faz feliz é o que interessa e pronto.
Muita gente me pergunta qual será meu próximo destino, eu sempre digo que não sei e que irei pra onde tiver vontade. Talvez eu volte pra Barcelona, pode ser que fique em Sydney ou seguindo o desejo da minha mãe, volte pra Bahia. Mas como diria uma música cantada na minha terra:

A minha casa é a Bahia
Mas o mundo é meu lugar
Eu posso até mudar o mundo
Mas não posso me mudar

Seguirei sendo nômade até quando a vida me deixar...




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4 comentários

  1. Que post lindo! Tão real. Acho que só quem já viveu essa sua experiência, consegue se identificar com cada linha. True story! Um pé na bunda te faz andar para a frente. Agradeço todos os dias todos os pés na bunda que levei e me fizeram chegar tão longe. Tenho certeza que a vida ainda vai te reservar novos destinos. Parabéns pelos 10 anos de vida nômade. Por algum motivo obscuro, ainda não sei porque eu continuo voltando para o lugar que eu nasci, mas ainda não sei bem qual plano a vida tem para mim. E assim, eu vou vivendo. Também concordo que o mundo é grande demais para a gente nascer e morrer no mesmo lugar. beijos!

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    1. Obrigada pelo carinho Fernanda! Depois que conheci gente como você e tantos outros que se aventuram pelo mundo, vi que minha mania de mudar e de conhecer o novo é comum entre viajantes.
      Você já conquistou muito, tantos carimbos no passaporte, uma volta ao mundo, tanto conhecimento que você adquiriu é o suficiente para se sentir orgulhosa!
      Um beijo grande

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  2. Vi seu post sobre Bali no VnV e vim xeretar teu blog. Corajosa, você, heim, menina. Sucesso e boa sorte pra vcs.

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